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terça-feira, 18 de abril de 2017

" [...] para que o luto leve a um resultado favorável, e não desfavorável, é necessário que a pessoa que sofreu uma perda expresse — mais cedo ou mais tarde  — seus sentimentos e emoções. 

'Soltai as palavras tristes”, escreveu Shakespeare, 'as penas que não falam sufocam o coração extenuado e fazem-no quebrantar”.  

Entretanto, embora até aqui todos possamos concordar, para uma pessoa que é incapaz de expressar seus sentimentos e para outra que esteja tentando ajudá-la a expressá-los, permanecem as perguntas:  Como soltar as palavras? Quais são os sentimentos a expressar?  E o que impede sua expressão?    

Existem  hoje provas de que os  afetos mais intensos e perturbadores provocados por uma perda são o medo de ser abandonado, a  saudade da figura perdida
 e a raiva por não reencontrá-la  —  afetos que estão associados,  por um lado,  ao   anseio de buscar a figura perdida e, por outro, a uma tendência  para recriminar furiosamente quem quer que pareça ser o responsável pela perda ou estar dificultando a recuperação da pessoa que foi perdida.  A pessoa que sofre
uma perda parece lutar contra o destino, com todo o seu ser emocional, na tentativa
  desesperada de reverter a marcha do tempo e reaver os tempos felizes que
subitamente lhe foram arrebatados.  Em vez de enfrentar a realidade e tentar
 harmonizar-se com ela, uma pessoa que sofre uma perda empenha-se numa luta contra o passado.  Evidentemente, para darmos à pessoa que sofre uma perda
 o tipo de ajuda que desejaríamos dar,  é essencial vermos as coisas do seu ponto  de vista e respeitarmos seus sentimentos — por menos realistas que
possam parecer.  Pois somente se a pessoa que sofre a perda sentir que podemos,  pelo menos, compreendê-la e simpatizar com ela nas tarefas que estabeleceu para  si mesma, haverá a possibilidade de que expresse todos os sentimentos que estão   fervilhando em seu íntimo   —  seu  anseio pelo regresso da figura perdida, 
sua esperança de que, milagrosamente, tudo possa ainda estar bem, sua  raiva
 por ter sido desertada, suas recriminações raivosas e injustas contra  “esses médicos incompetentes”,  “essas enfermeiras incompetentes”, e contra seu próprio  eu culpado; se tivesse feito  isto e aquilo, ou não tivesse feito isto e aquilo, talvez o  desastre pudesse ter sido evitado. Quer estejamos no papel de amigo de uma pessoa que recentemente sofreu uma perda ou no de terapeuta de alguém que sofreu   há muitos anos a morte de um ente querido e não conseguiu resolver seu luto,  parece ser desnecessário e prejudicial colocarmo-nos no papel de “representantes  da realidade”: desnecessário, porque a pessoa que sofreu a perda está, em alguma  parte de si mesma, perfeitamente cônscia de que o mundo mudou ; prejudicial porque, ao ignorarmos o mundo tal como uma parte da pessoa ainda o vê, afastamo-nos dela. O nosso papel deve ser,  então, o de um companheiro pronto a oferecer  todo o apoio, preparado para explorar, em nossas discussões, todas as esperanças  e  desejos e tênues possibilidades improváveis que a pessoa ainda acalenta,  somados a todas as recriminações, remorsos e decepções que a afligem" 

- John Bowlby in "Formação e rompimento de vínculos afetivos" (p. 87-88)  


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