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domingo, 19 de fevereiro de 2023

 "[...] há muitas possibilidades de olhar para o que acontece ou aconteceu. Há muitas verdades possíveis. E é a escolha de como olhar para os eventos (ou a falta deles) de sua vida que vai determinar a própria vida. Ou seja, ao escolher como olhar para sua vida você escolhe quem você é.

[...]

Descobri que o poder de contar minha história está em mim. É meu. Sou eu quem decido quais são os pontos culminantes, os ápices da minha existência, ao olhar para o passado e escolher o que vai dar sentido ao presente e somar no futuro".

- Eliane Brum



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A menina quebrada ____________ Eliane Brum

"Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: "A menina.... A menina.... Quebrou".

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. "A menina... A menina..." Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. "Quebrou..." Catarina repetia. "A menina... quebrou."

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: "A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes". Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará. Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus "dindos", seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: "Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?".
Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina? Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: "A menina... quebrou". Ou: "Eu... quebrei". E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: "Por causa do sabonete".

http://www.minutopsicologia.com.br/postagens/2015/02/21/a-menina-quebrada/


sábado, 20 de julho de 2019

“Todo o meu olhar sobre o mundo é mediado por um amor desmedido 
pelo infinito absurdo da realidade. E pela capacidade de cada pessoa 
reinventar a si mesma, dar sentido ao que não tem nenhum. 
São estes os únicos milagres em que acredito, os de gente".

- Eliane Brum em "O olho da rua" (p. 13). 


segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Somos tudo o que somos. Mas as pessoas que amamos 
exacerbam algumas partes de nós, para o bem e para o mal. 
E [ele] tem esse efeito sobre mim, de me tornar melhor do que sou" 

- Eliane Brum in "A menina quebrada" (p. 22).

Imagem do filme "Sobre amor e outras drogas"

sábado, 1 de abril de 2017

"[...] a verdade é uma criatura complexa e que pode levar a territórios imprevisíveis.
Ela pode libertar, sim - mas dificilmente sem dor.
E dificilmente sem um profundo e corajoso olhar para dentro."

- Eliane Brum


quinta-feira, 30 de março de 2017

"Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. Ele foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. 

'Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo. Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.' 


- Eliane Brum em "Você consegue viver sem drogas legais?"




segunda-feira, 27 de março de 2017

"Ofereço principalmente as minhas dúvidas, porque são as dúvidas 
que nos levam a lugares novos, as certezas nos cimentam. [...]
É pelos incômodos e pelas dúvidas que nos tornamos 
capazes de viver várias vidas numa só" 

- Eliane Brum in "A menina quebrada" (p. 16-18).






sábado, 25 de março de 2017

"[...] E me preocupo muito em não ser uma coisa só, 
como um daqueles gênios presos em uma garrafa, 
que só realizam o desejo dos outros. Me esforço então 
para desfazer rótulos sobre mim mesma - e faço caretas 
para não ficar cristalizada em uma só imagem no espelho, o privado e o público. Nesse momento da vida, a gente pode descobrir que é tão importante
 se desinventar como foi um dia se inventar".
  
- Eliane Brum in "Não, a vida não começa aos 40"



quinta-feira, 16 de março de 2017

"Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder . 
O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder 
também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos algo 
extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. [...] 
Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, 
as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom - se torna fascinante.

Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. 
Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento 
sem trégua, finitude. A cota da eternidade que nos cabe está encravada no tempo. 
É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro 
possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, 
e a nossa vida tem sentido".


- Hélio Pellegrino citado por Eliane Brum in "A menina quebrada"(p. 35-36).


Imagem: Kate Winslet in Titanic


terça-feira, 7 de março de 2017

"Tenho todos os medos em mim, menos o medo de ter medo. Prefiro fazer as coisas do meu jeito e cometer meus próprios erros. Tanto quanto os acertos, os erros também devem nos pertencer. Temos uma vida só, mas, dentro dessa, podemos viver muitas. E eu quero todas as minhas".

- Eliane Brum in "A menina quebrada", p. 21


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Quando me tornei repórter, tentei fazer da minha escrita um espelho amoroso no qual as pessoas cujas histórias eu contava pudessem se enxergar, descobrir-se habitantes do território das possibilidades e viver segundo seus próprios mistérios. Ser contadora de histórias reais é acolher a vida para transformá-la em narrativa da vida. É só como história contada que podemos existir."

- Eliane Brum in "Meus desacontecimentos" (p. 111).




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

"[...] a pergunta que me move é como cada um inventa uma vida. Como cada um cria um sentido para os dias, quase nu e com tão pouco. Como cada um arranca do silêncio para virar narrativa. Como cada um habita-se.
[...] Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra. Recordações são fragmentos de tempo. Com elas costuramos um corpo de palavras que nos permite sustentar uma vida".

- Eliane Brum in "Meus desacontecimentos" (p. 09) 


Na imagem, a querida escritora Zelia Gattai, que me encantou com seus livros-narrativas.



sábado, 5 de dezembro de 2015

"Ser contadora de histórias reais é acolher a vida para transformá-la em narrativa da vida. É só como história contada que podemos existir. Por isso escolhi buscar os invisíveis, os sem-voz, os esquecidos, os proscritos, os não-contados, aqueles à margem da narrativa. Em cada um deles resgatava a mim mesma - me salvava da morte simbólica de uma vida não escrita.
Toda história contada é um corpo que pode existir. É uma apropriação de si pela letra-marca de sua passagem pelo mundo. O ponto-final de quem conta nunca é fim, apenas princípio".

- Eliane Brum in "Meus desacontecimentos" (p. 111)


"O passado só existe a partir de um narrador no presente
que é tanto um decifrador quanto um criador de sentidos".

- Eliane Brum in "Meus desacontecimentos" (p. 89)




quarta-feira, 1 de abril de 2015

"Quando perdemos alguém que amamos, a dor é tão extravagante que nos come vivos, como se fosse uma daquelas formigas africanas que vemos nos documentários da National Geographic. A dor está lá quando acordamos. Continua lá quando respiramos. [...] E, quando por um instante nos distraímos, crava seus dentes bem no coração. Neste longo momento depois da perda, sabemos mais dos buracos negros do que os astrônomos, porque carregamos um dentro de nós. E arrancamos cada dia nosso do interior de sua boca esfomeada, com uma força que não temos, para que nos sugue de dentro para dentro".

- Eliane Brum em "As mães não deveriam morrer"     


quinta-feira, 26 de março de 2015

"Nada me dá mais medo do que gente que vive como se habitasse um comercial de margarina. Se aceitarem um conselho: corram dessas vidas de photoshop. Elas não existem. Gente de verdade vive do jeito possível - e tenta lembrar que o possível não é pouco. Isso não significa se acomodar, pelo contrário. Mas abrir os olhos para a novidade do mundo, na soma subtraída de nossos dias. 
Desejar a vida que nos deseja".

- Eliane Brum em "Nada é só bom"  



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"Se a dor é inerente à vida, ela necessariamente não é algo ruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de viver que faça mais sentido para nós. (...)
É na incompletude, que não se fecha com nenhuma pílula, que talvez possamos, individual e coletivamente, empreender uma busca sem nenhuma garantia, como são todas as buscas, que nos leve a criar uma vida que ainda possa fazer um robô aspirar a uma existência humana. 

- Eliane Brum em "Os robôs não nos invejam mais" 


sábado, 14 de fevereiro de 2015


"Não sei muito sobre mim mesma. Quando acho que sei um pouco, 
eu mesma me desmascaro e escapo de mim. ".

- Eliane Brum em "O olho da rua"


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Seja aos 40 ou em qualquer idade, a tal da 'vida de verdade' é fonte de muito sofrimento desnecessário. Ela coloca nossas vidas imperfeitas - 
e tudo e todos que dela fazem parte - como sendo sempre insuficientes diante de alguma outra vida imaginária. Ou nos instala no modo de espera de algo extraordinário que ainda vai acontecer e nos arrancar do que interpretamos 
como uma mesmice aquém do que merecemos. 

A 'vida de verdade' é uma grande mentira. 
E  a história de que 'a vida começa aos 40' a reforça. 
Nesse ritmo, talvez a vida não comece nunca. E acho que há gente demais - mulheres e homens - vivendo à espera de que a vida comece, sem reparar 
que ela já vai pelo meio".

- Eliane Brum em  "Não, a vida não começa aos 40" 


domingo, 25 de janeiro de 2015

"Ao tornar-me uma narradora de vidas aprendi que toda vida é uma invenção própria. Não que ela não seja feita de fatos, de dados concretos, de eventos incontroláveis. 
O que é absolutamente uma criação própria é a forma como cada um
 olha para a sua vida.
[...] Ao escolher como olhar para sua vida você escolhe quem você é".

- Eliane Brum em "Qual é a sua história?" 


 "Hoje, lidar com minha liberdade e ter a consciência de que sou totalmente responsável por tudo o que se refere a mim, incluindo aquil...