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sábado, 20 de agosto de 2022

 "Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. 

Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores do outono, o banho da cachoeira, mãos que seguram, o abraço do filho: 

houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse: 

‘Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida’."

- Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”




sábado, 16 de julho de 2022

 


"Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas
porque a gente não esquece.
O que a memória ama fica eterno".
- Rubem Alves

segunda-feira, 18 de março de 2019

"Há um tipo de relação que transforma tudo em objetos mortos. 
Uma mulher se transforma em objeto para o homem que faz uso dela para ter prazer. 
Um homem se transforma em objeto para a mulher que o usa para obter status
 ou segurança.
 Uma criança se transforma em objeto quando seus pais a manipulam 
para realizar os seus sonhos. [...] 
Buber deu a esse tipo de relação o nome de "eu-isso". [...] 
Todas as coisas, pessoas [...] se transformam em coisas que eu uso 
para atingir os meus propósitos."

- Rubem Alves em "O ipê e a escola"






sábado, 29 de dezembro de 2018

"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses". 
- Rubem Alves

segunda-feira, 15 de outubro de 2018


"Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo
pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais ..."
- Rubem Alves

sábado, 22 de setembro de 2018

"A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, 
cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros 
acho que nem não misturam. [...] Tem horas antigas que ficaram muito mais perto 
da gente do que outras, de recente data"

- Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, citado por Rubem Alves
 no livro "O amor que acende a lua", p. 167.


domingo, 16 de setembro de 2018

"A alma, no seu lugar mais profundo, é uma cena de felicidade. 
Viver é sair por aí, procurando a cena feliz [...].

Quando te vi amei-te já muito antes,
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci para ti antes de haver o mundo 
(Fernando Pessoa)

Amamos uma pessoa porque a sua imagem se insere na cena de felicidade 
que havia na memória 'antes de haver o mundo' ... A paixão acontece
 quando o rosto real à minha frente coincide, na minha fantasia, 
com a imagem perdida que busco (para completar a cena)". 

- Rubem Alves em "O amor que acende a lua", p. 143.


sábado, 15 de setembro de 2018

"Os poetas sabem que a alma não deseja ir para a frente.
A alma é movida pela saudade.
A saudade não deseja ir para a frente.
Ela deseja voltar.
Andar para a frente pode ser um equívoco."

- Rubem Alves in “O amor que acende a lua"


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"A Morte não é algo que nos espera no fim. 
É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, 
dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver. 
A branda fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte.
 Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte 
nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo 
que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos 
que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos 
que perpetramos. Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. 
Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, 
conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza... 
Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. 
E o que ela nos diz é simplesmente isto: 
'Veja a vida. Não há tempo a perder. É preciso viver agora! 
Não se pode deixar o amor para depois...'."

- Rubem Alves



terça-feira, 7 de agosto de 2018

"A gente fica esperando que a alegria haverá de chegar depois da formatura, do casamento, do nascimento, da viagem, da promoção, da loteria, da eleição, da casa nova, da separação, da aposentadoria ...  E ela não chega porque a alegria não mora no futuro, mas só no agora".

- Rubem Alves


terça-feira, 10 de julho de 2018

"A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir".
- Rubem Alves

terça-feira, 3 de abril de 2018

TÊNIS X FRESCOBOL

"Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: “Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?”. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: “Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo”. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: “Tens razão, minha querida”. A situação está salva e o ódio vai aumentando.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…"

- Rubem Alves



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"Ingênuos, pensamos que os olhos são puros, dignos de confiança,
que eles realmente veem as coisas tais como elas são. Puro engano. 
Os olhos são pintores: eles pintam o mundo de fora 
com as cores que moram dentro deles.
Olho luminoso vê mundo colorido;
olho trevoso vê mundo escuro."

- Rubem Alves 

imagem: Christian Schloe


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"[...] quero viver ao lado de gente humana, muito humana; 
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, 
não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial"!

- Rubem Alves 


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que pronunciamos 
a partir do silêncio,
pedindo que o silêncio nos fale".

- Rubem Alves


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"Amor impossível é igual ao fogo: se tocar, queima e pode mesmo matar. 
Mas, se não for tocado, se a gente apenas ficar perto, ele aquece e ilumina".

- Rubem Alves


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Gibran Khalil Gibran, no seu livro, O Profeta', tem um lindo texto sobre os filhos que se tornou clássico, diz algo mais ou menos assim: Vossos filhos não são vossos. São flechas. Vós sois o arco que dispara as flechas. Bonito mas errado. Nossos filhos não são flechas. Porque flechas, ainda que disparadas, vão na direção que o arco indicou. Mas os nossos filhos não vão na direção que escolhemos. O certo seria: Vossos filhos são flechas que, uma vez disparadas, se transformam em pássaros. Voam para onde querem."

- Rubem Alves


sábado, 3 de setembro de 2016

"A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. 
O que valeu a pena está destinado à eternidade. 
A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo."

- Rubem Alves



domingo, 14 de agosto de 2016

"Somos belos porque dentro de nós há um jardim que, 
vez por outra, se deixa ver através de nossos gestos".

- Rubem Alves


quinta-feira, 28 de julho de 2016

"As máscaras de carnaval podem ser colocadas e tiradas pela própria pessoa. Mas a máscara colada no nosso rosto só pode ser retirada por uma outra pessoa. Ela só se desprega da nossa pele quando tocada pelo toque do amor. E assim sabemos que estamos amando: quando, diante daquela pessoa, a máscara cai e voltamos a ser crianças…"

- Rubem Alves


 "Hoje, lidar com minha liberdade e ter a consciência de que sou totalmente responsável por tudo o que se refere a mim, incluindo aquil...